URBANICIDADE – AS EXPLICAÇÕES INACREDITÁVEIS SOBRE A SAÍDA DA FORD

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No artigo que reproduzo abaixo , Luíz Nassif critica alguns comentários veiculados na grande mídia a respeito da inacreditável saída do Brasil (mas não do mercado brasileiro) da montadora Ford, que atuava por aqui há décadas. Assim como ele, desconfio que teremos um ano com muitas notícias desagradáveis na área econômica, e com causas mais profundas do que àquelas causadas pela pandemia de coronavirus.

“É inacreditável o estoque de explicações sobre a saída da Ford do país. O jornalismo fixou-se em duas ou três explicações genéricas, que são utilizadas para qualquer caso e qualquer circunstância.

Em um canal, ouve-se que o Brasil desvalorizou muito sua moeda e tornou a produção cara. Em outro, a explicação de que a Ford decidiu concentrar-se na Argentina porque lá a moeda se desvalorizou muito, tornando a produção mais barata.

Em outro canal, o âncora especializado em política externa, jura que a saída da Ford se deveu à ausência da reforma fiscal e outras reformas que irão salvar o país, porque o custo Brasil é muito elevado. O mantra das reformas é repetido a torto e a direito, sem a menor preocupação em identificar os detalhes das tais reformas, os impactos positivos e negativos e o peso final sobre o custo Brasil de cada setor.

Em outro, diz-se que a indústria automobilística brasileira – formada pelas maiores montadoras globais, disputando o mercado a ferro e fogo – foi mal acostumada com subsídios e desaprendeu de competir.

É muita superficialidade em torno de um tema dos mais relevantes.

Sugere-se aos propagandistas do custo Brasil que detalhem o que vem a ser este custo.

Por exemplo, há um sistema tributário complexo. Mas é o mesmo sistema tributário de décadas. E, antes, era inimaginável a Ford pensar em sair do país. Não significa minimizar a complexidade tributária, mas certamente não foi o fator que determinou a saída da Ford.

Um dos custos Brasil é a precariedade do sistema de rodagem. Resolve-se com aumento de gastos públicos.

O que mudou então?

Seria um bom exercício de lógica, ainda mais agora que a cobertura do Covid-19 finalmente trouxe a mídia para o primado da ciência e da racionalidade. Mas na economia mantém-se a mesma irracionalidade de repetir platitudes sem a menor preocupação em definir relações de causa e efeito.

O ponto central é a queda da produção, decorrente da queda do mercado interno e das exportações. Em janeiro de 2012, o acumulado de 12 meses de produção batia em 3,4 milhões de veículos. Em outubro de 2013, bateu o recorde de 3,8 milhões. Desde então, foi despencando, teve uma pequena recuperação em 2018, mas longe do desempenho dos anos anteriores e agora desabou para a faixa dos 2 milhões de veículos.Queda de produção impacta o custo fixo, aluguel, investimentos, mão de obra. Simples assim.

A produção foi afetada tanto pelas vendas internas quanto pelas exportações.

Obviamente, há outros fatores, como a entrada das montadoras coreanas e chinesas no mercado brasileiro, a perda do ímpeto inovador que fez a Ford, dez anos atrás, montar uma fábrica modelo na Bahia; a revolução da robótica; a mudança no perfil de combustível dos veículos.

Mas o ponto central foi a queda do mercado, devido à continuidade de políticas econômicas equivocadas, que vem desde os desastres de Joaquim Levy.

O que chama a atenção é que, mesmo dando sinais de sair do país há tempos, não houve uma abordagem sequer do Ministro da Economia para negociar a permanência da produção no país.

Paga-se mais uma conta enorme, decorrente de dois erros fundamentais. O primeiro, o de transferir o Ministério da Indústria, Comércio e Desenvolvimento para a Economia, criando um monstrengo inadministrável. O segundo, de entregar o comando a Paulo Guedes. Ontem, Guedes dizia não entender a saída da Ford, em um momento em que a indústria tem uma recuperação em V. Seria melhor complementar que é uma recuperação que ninguém vê.”