Garimpando – Uma rua encantada verdadeiramente encantada – 11

O SERVO DE DEUS

DÉCIMA PRIMEIRA PARTE

            Acercou-se, aflito, ao leito e, naquele momento, iniciou-se uma luta inclemente entre Moisés e a morte que inclemente se aproximava.

            Encostado à janela, Teodoro continuava pensando, com duas palavras terríveis martelando em sua cabeça: SEMPRE QUASE, SEMPRE QUASE, SEMPRE QUASE…

            Até que seu doloroso pensamento foi interrompido. Bateram levemente na porta. Devia ser o hospedeiro querendo saber notícias de Francisca. Era um homem bondoso e prestativo Mas Teodoro parecia estar com os pés doloridos agarrados ao chão, sem disposição para mexê-los. Assim, apenas disse:

            – Pode entrar.

            – Desculpe bater tão cedo à porta de vosmecê, mas o estalajadeiro me disse que havia uma pessoa doente e eu vim oferecer meus préstimos.

            A voz chamava a atenção. Era ao mesmo tempo forte e suave. Voz de quem reflete muito e conhece seu poder.

            Só então Teodoro virou-se lentamente e viu um homem com espessa barba preta, pele morena e, o que mais ressaltava em seu rosto, os olhos escuros, penetrantes, profundamente penetrantes e que, ao se fixarem nele, brilharam mais. De repente, um largo sorriso assomou ao rosto do desconhecido:

            – Seu Teodoro!!!

            E, correndo ao encontro do estupefato homem, deu-lhe um abraço mais que caloroso.

            Só então, olhando de perto, Teodoro reconheceu o recém-chegado. Mas ficou mudo, em estado de choque, até que conseguiu balbuciar: – Moisés…

            Não! Teodoro não conseguia acreditar. Era bom demais para ser verdade!

            – Mas como vosmecê veio parar aqui?

            – É uma história bem comprida que eu vou contar. Mas o que é que vosmecê está sentindo?

            – Não sou eu, Moisés. É Sinhazinha Francisca.

            Só então Moisés percebeu o catre e a moça que ali estava deitada.

            Acercou-se, aflito, ao leito e, naquele momento, iniciou-se uma luta inclemente entre Moisés e a morte que inclemente se aproximava.

            Moisés foi incansável no atendimento a Francisca. A moça ardia outra vez em febre. Após dar à doente um remédio que trazia no seu alforge, Moisés viu que a febre ia diminuindo, mas a moça continuava inconsciente.

            Quando Moisés perguntou se acontecera alguma coisa, se algum bicho mordera a moça. Teodoro contou disse não saber, mas falou sobre a aranha que caíra da roupa de Francisca, já havia quase dois dias. Moisés afastou a blusa da moça e viu, próximo ao ombro, uma enorme e terrível mancha preta; correu outra vez ao alforge e tirou uma pedra redonda, mas um pouco amassada, com uns desenhos nela riscados. Mandou que Teodoro buscasse um pouco de leite, no qual mergulhou a pedra, colocando-a sobre o local, que apresentava um círculo arroxeado, quase negro. A pedra, na mesma hora, agarrou-se à pele.

Foto da pedra feita pelo último índio carijó de nossa cidade, Francisco Carneiro da Conceição, muito conhecido por Chico Carneiro
Imagem do meu arquivo

            Estava confirmada a sua suspeita. Fora a aranha que mordera o braço de Francisca.

            Moisés explicou a Teodoro o que fizera. Alguma aranha muito venenosa entrara na blusa de Francisca e a mordera. Não fora percebido porque só vinte quatro horas depois os sintomas se manifestavam. Aquela era uma pedra de índio, que lhe fora dado por uma índia carijó que conhecera em suas andanças. O veneno que já se estava espalhando no corpo da pessoa, era chupado para dentro da pedra. Mesmo que alguém quisesse tirá-la, ela não sairia. Quando o veneno fosse todo sugado, a pedra se desprenderia sozinha.

            Quando notou que a moça já estava mais tranquila, a respiração regularizada, o coração sem palpitações, Moisés saiu para procurar, nos terrenos próximos, algumas folhas e raízes. Amassou tudo com um pilãozinho que também trazia no alforge, espremeu num pano limpo, e o líquido que resultou da atividade foi dando às colheradas à doente. Tranquilizou Teodoro. A moça só iria acordar no dia seguinte porque a beberagem a faria dormir. E era bom porque o sono repararia as forças.

            Os dois passariam a noite no quarto de Francisca para vigiar o seu sono e verificar se não apareceria algum problema.

            – É… se vosmecê não tivesse aparecido… nem quero pensar. Sinhazinha ia morrer. Eu estava agoniado.

            – Realmente estava sujeito a isso acontecer. Com a graça de Deus cheguei a tempo.

            Mas outra coisa, além da doença de Francisca, atormentava o homem desde que reconhecera Moisés. Onde estaria o menino? Por que não estava com o pai? E assim, depois de dar graças a Deus por estar em bom caminho a saúde da moça, perguntou ansioso:

            – E o menino? Que aconteceu com ele?

            – Meu filho está muito bem! Quando mudei do Redondo, deixei com uma família amiga que tinha muito amor por ele. Era a família do fazendeiro que me deu serviço e acolheu meu filho. Ele e sua mulher D. Emerenciana nunca tiveram filhos e fizeram, do meu, o filho deles. Ele se chama… Adivinha!… Teodoro, em homenagem ao nosso salvador.

            As lágrimas escolheram pela face do homem que acabara de reencontrar seu filho, um segredo que resolveu não contar a Moisés.

            – Agora vou contar a minha história de depois que vosmecê nos mandou fugir pelo mato – disse Moisés.

            Estavam sentados junto à janela do quarto de Francisca. Eram seus devotos guardiães.

            Teodoro estava curioso para saber a história de Moisés, por isso ouvia atento.

            – Quando vosmecê me deixou na mata, e mandou que eu fosse para bem longe, fui andando desnorteado. A criança começou a chorar de fome e de frio. Já tinha andado muitas horas quando cheguei num descampado. E o que eu encontro? Uma taba de índios puris.

  

            Teodoro até arrepiou. Muita coincidência. Ou seria a força do sangue de Atira… Ela era uma índia puri… E dela ele herdara a cor morena, aquele cabelo liso e forte.

            – Eu estava com medo, principalmente pela criança, porque sempre ouvira falar que os puris eram índios bravos. Mas eu acho que me acharam parecido com eles, embora eu tenha os olhos claros. Afinal, eu não sei a minha origem… Poderia ser um deles… Sendo ou não, o certo é que me receberam muito bem. Teodorinho foi criado no meio das outras crianças. No tempo em que convivi com eles, vi que são mansos, tranquilos; só se enfurecem quando são provocados. Mas uma coisa é verdade. Eles não esquecem as ofensas. Aí são vingativos.

                                               (Continua)

 

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